
“Deixe que a chuva venha e renove a sua vida, levando com ela os maus fluídos que nos cercam e nos abençoe com a graça de seu gotejar. A partir de agora, estou aqui para te salvar, com esse guarda-chuva protegido você irá ficar” foi proseando esse versinho que um senhor negro, que aparentava ter uns 40 anos me abordou em uma esquina de Copacabana, o famoso bairro do Rio de Janeiro (RJ), em meu primeiro dia de estadia na cidade maravilhosa.
Junto dele estavam vários guarda-chuvas, de todas as cores e tamanho. Pois naquela tarde o céu estava nublado, com momentos de chuva e outros de garoa, encobrindo boa parte da famosa paisagem natural daquela cidade. O tempo escuro, de tom cinzento e com uma textura entristecedora daquele momento, fez com que a beleza oculta por de traz de cada rosto – que por mim passaram naquelas últimas 4 horas de caminhada à beira-mar – se ressaltasse, preenchendo a minha vida de novas cores e sentimentos.
Porém, nada até então chamara mais a minha atenção do que aquela abordagem simpática daquele senhor, que carregava mais que as linhas de expressões de uma vida fadigada por um dia inteiro de trabalho árduo e das dificuldades que talvez pelo caminho tenha encontrado. Pois mesmo em meio aquele início de temporal ao final da tarde, carregava consigo um grande e largo sorriso em seu rosto estampado, mesmo que lhe faltassem alguns dentes em sua boca, sua alegria era contagiante e sua simpatia encantadora, fazendo com que nada mais importasse, fosse apenas aquele momento, uma mistura de poesia e trabalho e sentimento.
Foi então que comecei a reparar em cada pessoa que por ventura passava por mim – cada qual com sua vida, cada qual com sua história – mas todas com a mesma simpatia e a típica receptividade carioca.
Seja o taxista, o motorista do ônibus, a atendente do restaurante ou da farmácia e principalmente as pessoas das quais eu parava na rua para pedir alguma informação, todas – sem exceção – me tratavam com muita educação e simpatia, um universo muito diferente do qual eu vivi durante aproximadamente nove anos no Japão, apesar da rígida educação oriental, nunca em momento algum eu vivenciei uma experiência tão acolhedora como essa que passei na cidade maravilhosa.
Agora compreendo o que Carlos Drummond de Andrade quis dizer quando escreveu “A gente passa, a gente olha, a gente pára e se extasia. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças, nos jardins dos edifícios (…)”
Seja na zona sul ou no Saara, na zona norte ou no Leblon, independente das divergências e dos contrastes sociais; onde quer que você esteja sempre será bem recebido, afinal estamos falando de uma cidade onde a receptividade é o primeiro conceito de seu povo, mais conhecido como “carioca”.
Depois de cinco dias de estadia, o que restou além da saudade, foi à admiração por aquele lugar, não só pelos seus atrativos naturais, mas pelas pessoas que tornam o Rio, uma cidade mais que encantadora, uma “Cidade Maravilhosa”.
Como diria o filósofo suíço, Alain de Botton, durante sua recente visita ao Brasil, “a população do Rio representa mais a imagem clássica do brasileiro entusiasmado, imediatamente afetivo”, onde as pessoas são apresentadas às outras e acham que não há motivo para não gostar delas, uma amabilidade tipicamente brasileira, tipicamente carioca.
Apesar de em nada ter contribuído para que vc se tornasse esse jornalista, cronista, escritor de tanta sensibilidade, não pude deixar de me orgulhar por vc, Guto! Adoro seu estilo de texto! Quando íamos imaginar que nos tornaríamos colegas de profissão, hein? rs
Saudades! Bjos e boa sorte!
Ah, esqueci de assinar… rs Dri Nakamura, sua amiga de Ooarai =)