Por Marithê Lopes
É a minha mão esquerda que faz a tinta da caneta desenhar as palavras num papel em branco e transformá-lo em uma paisagem cheia de letras e frases e pedaços de mim.
Só sei escrever quando o que sinto transborda, e as palavras são nada mais do que água derramada sobre o papel. Escrevo pra dizer o que sinto, não para o mundo, mas para mim. Pra me convencer daquilo que eu nem ao menos faço idéia. Talvez para me lembrar de quem eu sou, de como sou. Ou ainda para expor ideologias perdidas, que ficarão apenas retidas num papel esquecido no fundo da gaveta, ou no fundo da memória.
Eu escrevo o que sinto sem pensar o que sinto. Procuro encostar as palavras nas ideias. Desencaixotar minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e encontrar apenas eu. Ainda sou alguém, pois trago no Universo ele próprio. Isto tudo, sinto e escrevo.
Se eu fosse um dinossauro, eu seria um Marithêssauro. E se eu soubesse um milhão de palavras, eu teria o meu próprio dicionário de sinônimos. As minhas verdades são provisórias. Sei que minha alma é divina, porém minha obra é imperfeita. ”Quem não vê bem uma palavra, tampouco verá bem uma alma” disse o poeta.
Eu apenas escrevo, tramito entre o real e o irreal. Crio um lugar encantado, super digno, onde sua sedução seja melhor que minha realidade e assim tento trazer esse mundo encantado para a humanidade.
Puro hábito. Escrevo apenas por escrever. Não me pergunte o que dizem os meus textos, não saberei lhe dizer. Eles falam de dor, de vida, de morte, de sonhos. Mas não sei o que falo ou penso sobre essas coisas. Ensaio palavras.
Escrevo porque o papel aceita tudo. Ele é surdo e mudo, mas ele me entende e me dá asas para voar. Ele não pode protestar as minhas idéias. Não pode discordar de mim. Falo de fome sem senti-la, falo de dor sem ter perdido um filho, falo de vida sem viver a minha, falo de morte sem lembrar as vezes em que eu morri.
Traduzo minha alegria, minha felicidade, saudade, ira, tristeza, através da escrita. Só assim eu me sinto alguém ou até mesmo ninguém. Já cai demais e preciso ser alfabetizada para não perder o encanto da voz da minha alma.
Sou escrava do papel. Quando escrevo, simplesmente me ouço, escrevo para renascer. Escrevo porque o cenário que a vida me oferece, as tramas dos seres humanos, os efeitos especiais da natureza, clamam por uma descrição dos detalhes. Faço isso escrevendo.
Gosto de gastar o lápis, rabiscar até a última página do caderno, de secar a tinta da caneta. Eu gosto de te seduzir com as palavras que eu escrevo. Tudo me inspira a escrever. Não gosto de ver aquela página em branco.
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